Havíamos iniciado o assunto sobre o momento das refeições.
Neste artigo iremos discutir um pouco mais sobre a importância de nos educarmos a termos padrões de alimentação com relação a horários, a importância dessa regra e como ter uma alimentação com horários desregrados pode atrapalhar nossa boa saúde ou atrasar - quem sabe até impedir - os resultados que queremos obter.
Centenas de processos biológicos estão envolvidos no processo de alimentar-se.
Viver é gastar energia e manter a vida é ser capaz de manter o afluxo de energia constante para as células de forma a garantir o funcionamento do maquinário celular.
Apesar de parecer tarefa simples, manter o afluxo de energia para os bilhões de células que possuímos é uma tarefa razoavelmente complicada quando inserios a palavra constante no contexto.
Sem energia a célula pára, e se pára, não tem nem mesmo como manter os processos que a mantém intacta, que é o caso das bombas iônicas que ficam mantendo as concentrações de íons dentro e fora das células em níveis compatíveis com a vida.
Sendo assim, a natureza nos abençoou com uma dezena de mecanismos regulatórios e contra-regulatórios que fazem com que a homeostase (funcionamento normal do organismo) se mantenha.
Nosso grande desafio nesse caso é saber utilizar esses processos a favor dos resultados que queremos...
Esses mecanismos são ativados e desativados de acordo com mudanças que nosso corpo é capaz de detectar independente dos nossos processos conscientes e reagir independente da nossa vontade. Saber controlar os períodos de jejum já é um grande passo para sermos capazes de influir nos processos fisiológicos a nosso favor.
Como havíamos comentado no artigo prévio, alimentar-se é um processo matemático exclusivo de contar calorias somente num primeiro momento: o da confecção do cardápio. Nesse artigo delinearemos alguns tipos de processos fisiológicos que se contrapõe aos nossos anseios quando nossos horários não estão adequados.
O primeiro ponto a ser discutido nesse artigo é justamente o da energia disponível.
Podemos medir no sangue a quantidade de energia disponível através dos exames de glicemia (que diz quanto de açúcar pronto para uso o organismo dispõe), triglicérides (uma fonte de energia um pouco mais complexa, que necessita de alguns processos metabólicos para disponibilizar os fragmentos de açúcar) e o colesterol (a quantidade e forma de agregação de gorduras disponíveis). Destes, vamos comentar sobre a glicemia, que é o maior estimulador de processos metabólicos que visam preservar a homeostase.
Se nos submetermos a um exame de glicemia de jejum,veremos logo ao lado do resultado os valores de referência, que vão de 60 a 115mg/dl de sangue - essa é uma média da quantidade de açúcar que uma pessoa não doente deve apresentar normalmente no sangue. Esse valor pode ser alterado por refeições, por estress físico e emocional entre outros fatores. A queda da glicemia é um dos estímulos mais intensos para o organismo reagir, ora diminuindo o próprio metabolismo (com prejuízo ou não das funções normais) ora liberando hormônios que farão com que energia seja retirada de outros estoques para ser jogada no sangue no intúito de dar vazão à necessidade de energética do organismo. E porquê será que a glicose é tão importante? Simples: o cérebro utiliza exclusivamente a glicose como fonte energética para as células que o compõe - os neurônios - portanto o nível de glicose no sangue é algo "monitorado" assiduamente pelo organismo, já que o orgão mais nobre de todos se mantém graças exclusivamente à partir deste nutriente.
A baixa concentração de glicose no sangue, que comumente chamamos de hipoglicemia, antes mesmo de dar sintomas - como é de costume - faz com que determinados hormônios sejam liberados, sendo que os mais importantes dentre eles são: o glucagon e o cortisol, na tentativa de aumentar a glicemia do sangue à partir do glicogênio hepático e de amino-ácidos - como a glutamina e a alanina - respectivamente. Tais hormônios fazem com que os processos que envolvem a reparação dos estoques energéticos e outras funções relacionadas à preparação para um novo período de stress físico se interrompam dando lugar à manutenção da homeostase, ameaçada pela falta de energia.
Picos de concentração de glicose no sangue são igualmente deletérias para o organismo saudável, e essa "agressão" é combatida com secreção de insulina, jogando o açúcar do sangue para dentro das células e provocando muitas vezes uma hipoglicemia reflexa devido à quantidade desse hormônio lançada na circulação sanguínea. Esse equilíbrio da glicose sangüínea é alcançado após diversos ciclos liberação de hormônios regulatórios e contra-regulatórios, período no qual os processos de recuperação do estímulo físico no caso dos atletas e praticantes de atividade física se interrompem para dar prioridade à manutenção da homeostase.
Quanto mais desregulada a alimentação de um indivíduo, mais esses níveis de glicemia variam e mais esses mecanismos contra-regulatórios são utilizados, fazendo que o corpo trabalhe sempre em regime de "emergência" sem poder ter adequadamente um período para se recompor diante do stress fisiológico causado pelo exercício físico.
Falamos do quanto é importante uma alimentação com horários regrados e porquê, no próximo artigo discutiremos a relação com o ciclo circadiano, períodos de sono e jejum e tipo de alimentos adequados para estes períodos.
Até lá!
Dr. Paulo Cavalcante Muzy
Médico formado pela Escola Paulista de Medicina - Unifesp
Pós-graduando do Centro de Estudos de Fisiologia do
Exercício da Escola Paulista de Medicina - Unifesp
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