Aspectos Nutricionais da Prática Desportiva - Rudimentos - Parte I

Antes de discutirmos as filigranas que tornam a nutrição esportiva algo tão intrigante e interessante, convido-os a partilhar de reflexões que deveriam vir sempre a nossa mente antes de decidir, ou opinar, se uma dieta deve ter 1200 ou 1100 kilocalorias, ou ainda se deve ter 25% ou 20% de gordura.

Alimentar-se, para qualquer indivíduo, significa fornecer energia para os gastos metabólicos que estão por vir. À rigor, quando dizemos que há necessidade de repor nutrientes, queremos dizer que precisamos recarregar nossos estoques energéticos, porque, em verdade, não existe esse "gap" energético que podemos subentender. O corpo humano, e o de qualquer ser vivo, só pode gastar aquela energia que ele tem estocada, não pode gastar aquilo que ele irá consumir. O que muda de uma situação para outra é de onde será retirado este substrato energético... E esse é nosso desafio: utilizar a energia reservada dos estoques que desejamos (tecido gorduroso, açucares ou musculatura), seja para obter o máximo de performance, seja para alcançar um perfil físico mais compatível com padrões de saúde ou estética.

Apesar de primário, este conceito é muito importante mais adiante, quando iremos discutir o papel da suplementação para os praticantes de atividade física.

Temos que criar desde já a cultura de que possuímos diversas formas de reservar energia, e que as condutas profissionais que se dão a partir da demanda do paciente/cliente irão definir que tipo de reservatórios serão depletados e quais serão preenchidos, ou até ampliados...

Retomando o nosso assunto principal, alimentar-se significa estocar energia, e qualquer tipo de macronutriente - açucar, gordura e proteína - dispões de um valor calórico intrínsico. Abrimos um parenteses para fazer esse comentário porque muito se fala sobre dieta de proteínas, muitas vezes como se elas não tivessem calorias, e elas têm (para fins práticos, as proteínas têm a mesma densidade calórica que os carboidratos: 4 kcal por grama de substância). Isto significa que, do ponto de vista calórico, 1g de proteína é praticamente igual a 1g de qualquer carboidrato.

As proteínas, já que começamos a falar delas, também são uma fonte de energia que pode e será usada pelo organismo se a necessidade energética assim demandar.

Chegamos a mais um ponto importante: todo alimento, exceto as fibras alimentares, são fontes de energia, energia esta que será usada de acordo com a demanda metabólica e a facilidade de utilização.

Alimentar-se só é um processo simples de soma e subtração de calorias antes do alimento ser ingerido. Uma vez no nosso corpo, aquele alimento irá seguir as vias metabólicas que o organismo estiver estimulando naquele momento, vias estas que irão obedecer desde o perfil genético do indivíduo até a forma que ele empenha a energia gasta diariamente nos seus processos habituais.

Explicando melhor, manter uma boa dieta não é somente contar calorias, da mesma forma que não é somente escolher determinados alimentos e ingerí-los sem algum tipo de controle. Nesse momento o papel do nutricionista é impressindível, pois é o profissional com o conhecimento necessário para equilibrar a quantidade de energia necessária com as fontes de onde essa energia será obtida, sem se esquecer dos micronutrientes tão importantes que compõe uma dieta.

Vamos exercitar o bom senso? Supondo que um indivíduo qualquer tivesse uma dieta de 2500 kilocalorias e viesse até você perguntar se poderia consumir essas 2500 kcal em bombons de chocolate. Você diria a ele que seria o mesmo do que consumir essas mesmas 2500 kcal na alimentação normal, ou ainda em suco de laranja, ou ainda em margarina? Se sua resposta foi sim, talvez valha a pena reavaliar seus conceitos e procurar um nutricionista urgentemente... Agora, se você julga que dietas baseadas em nutrientes diferentes, ainda que com a mesma densidade calórica, não são iguais, significa que seu senso de alimentação está aguçado o suficiente para continuarmos nosso raciocínio.

Vamos para outro exercício...
Supondo que somos ressonantes quando afirmo que laranja faz bem a saúde, um outro indivíduo qualquer chega a você queixando-se de que não consegue emagrecer de forma alguma apesar de se alimentar muito bem, inclusive chupando uma dúzia de laranjas por dia para "manter níveis adequados de vitamina C". Aposto que ao menos soou estranho... Pois sim, afinal de contas, laranja é uma das futas que mais tem capacidade de aumentar a taxa de açúcar no sangue, e seria estranho não admitir que há um exagero por parte dessa pessoa, exagero que inclusive atrapalha o alcançar do objetivo que ela mesmo se propôs.

Percebemos dessas duas situações que alimentar-se é mais, muito mais do que comer uma quantidade de energia de uma determinada fonte energética.

Agora me sinto à vontade para apresentar às senhoras e aos senhores algumas das filigranas que tornam a nutrição esportiva tão intrigante.

Além das peculiaridades discutidas acima, é muito importante determinar o momento em que a refeição é realizada em relação ao período de treinamento, horas e qualidade de sono e treniamento anterior, que tipo de alimento fornecerá o macronutriente desejado, seu índice glicêmico, a necessidade de mastigação versus o volume a ser ingerido, processos de saciedade, velocidade de digestão e absorção, capacidade de empaxamento e lentificação do trânsito intestinal, isso só para começarmos a conversar...

Este foi um artigo introdutório para padronizarmos determinadas informações que iremos abordar a cada novo assunto.
Num próximo momento discutiremos um pouco mais sobre como o momento das refeições influi numa dieta saudável e num processo de ganho de performance e entraremos cada vez mais nos meandros que determinam a performance atlética dos praticantes de atividade física.

Até lá!
Dr. Paulo Cavalcante Muzy
Médico formado pela Escola Paulista de Medicina - Unifesp
Pós-graduando do Centro de Estudos de Fisiologia do
Exercício da Escola Paulista de Medicina - Unifesp
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Contato: (11) 3079-3502 e 3079-0731 - E-Mail: paulomuzy@orthosport.com.br

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